sexta-feira, 18 de setembro de 2009

SODOMA, ANJOS E FICHA LIMPA

Por Edmílson Martins de Oliveira

Dois mil anos antes de Cristo.
“O Senhor Deus apareceu a Abrahão”. Assim: “Abrahão levantou os olhos e viu três homens de pé diante dele. Levantou-se e os acolheu, oferecendo água , comida e repouso”

“O Senhor disse a Abrahão:” É imenso o clamor que se eleva de Sodoma e Gomorra, e o seu pecado é muito grande. “Vou lá para verificar se realmente suas obras correspondem ao clamor que chegou até mim. E os homens levantaram-se e partiram para Sodoma.”

“Abrahão ficou em presença do Senhor, aproximou-se Dele e disse: “Faríeis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja 50 justos na cidade, fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade, em atenção aos 50 justos que nela se poderiam encontrar? O Senhor disse: ”Se eu encontrar em Sodoma 50 justos, perdoarei a toda a cidade em atenção a eles”.

Na verdade, Abrahão não acreditava que havia justos em Sodoma, a não ser o seu sobrinho Ló e filhas. Por isso, foi indagando se o Senhor não destruiria a cidade se houvesse 45, ou ... 40, ou...30, ou...20, ou...10 justos. Deus, por fim, respondeu que se houvesse 10 justos não destruiria a cidade, por causa dos 10 justos. Abrahão, com tristeza, voltou para casa e o Senhor se retirou.

E os anjos, que tinham partido na direção de Sodoma para verificar suas obras, acabaram destruindo-a, com uma chuva de enxofre e fogo, por causa dos pecados dos seus habitantes, que eram muito grandes. Somente se salvaram Ló e suas duas filhas. Sua mulher, que era de Sodoma, virou estátua de sal, porque na fuga olhou para trás

Quatro mil anos depois.
Estávamos na rua fazendo a Campanha Ficha Limpa, quando se aproximaram três homens. Depois de saudá-los e oferecer-lhes água e cafezinho, explicamos a eles que estávamos lutando para impedir que políticos com ficha suja se candidatem a qualquer cargo eleitoral. E os convidamos a subscrever o projeto de lei de iniciativa popular.

. Eles então disseram:
- Não temos título de eleitor. Em nosso país não há necessidade de eleições. Lá, todos são fraternos e justos, tudo é igualmente de todos e somos um só coração. Há respeito mútuo e tudo é consenso.
- E o que fazem por aqui? – perguntamos.
- Estamos indo a Brasília para verificar se o clamor que chegou até o Senhor Deus é verdade. Se assim for, o Senado e a Câmara serão exterminados, por que o seu pecado é muito grande. Aqueles senhores já passaram do limite, já fizeram dos atos ilícitos um hábito. Eles dão mau exemplo ao nosso povo. Primeiro, foi a história do mensalão, na Câmara, no PT e no governo, depois aquela pouca vergonha no Senado com Renan Calheiros, agora, esse escândalo do Sarney. E tudo no maior cinismo. Ninguém sabe de nada... Ninguém viu nada... Tudo é lícito... Vale tudo... Agem como bandidos e dão uma de “mocinhos”. Cometem os mesmos erros dos seus antecessores.
- Mas Senhor, – replicamos – no Congresso ainda há alguns justos. Serão exterminados por causa dos corruptos?
- Será que lá há mesmo alguns justos? – indagaram os homens. Abrahão buscou 10 justos em Sodoma e não encontrou, por isso, a cidade foi destruída. E Lula já disse que na Câmara tinha 300 picaretas. Hoje, deve ter muito mais, porque o Lula tornou-se aliado deles, generalizando a picaretagem. Lula combatia as maracutaias, mas relaxou. Por isso, o grupo dos picaretas, certamente, cresceu. E pra completar, a Câmara acaba de aprovar as tais “Regras Eleitorais”, favorecendo práticas políticas imorais, eticamente inaceitáveis.

Então insistimos:
- Senhor, nós conhecemos alguns políticos justos. Inclusive, vários deles estão na Campanha Ficha Limpa. (E mostramos uma foto do ato público ficha limpa, ocorrido em Brasília, em que aparece o deputado Chico Alencar ao lado do bispo, secretário da CNBB, d. Dimas, do advogado Aristides Junqueira, do ator Milton Gonçalves e outros).
- Mas aí nessa foto só vemos um parlamentar (apontando para o Chico). Onde estão os outros? – perguntaram.
- Temos informações de que alguns outros estavam lá, só não apareceram na foto – respondemos.

E os anjos foram a Brasília e constataram que no Congresso, no meio de tanta corrupção, tem mais de 10 justos. Por isso, por causa deles, não o destruíram. E nos estimularam a continuarmos na luta de salvação, sem olharmos para trás, para não virarmos estátuas de sal.
Mas advertiram:
- Prestem atenção nos exemplos da História, no que aconteceu a Sodoma e Gomorra, no desmoronamento do Império Romano, no desmonte da experiência socialista do leste europeu. Esses e outros impérios pereceram por causa dos seus pecados, porque não andaram nos caminhos da justiça. Sucumbirão as sociedades cujos fundamentos são a ganância, a busca do poder do dinheiro e do lucro, a ambição de dominar. Serão destruídas pelos seus próprios erros. Perecerão por desrespeitarem a dignidade do ser humano e as leis do Criador.
E recomendaram:
- Vão em frente, não desistam, combatam o mal que corrói as instituições representativas, que foram criadas para ajudar a construir a sociedade, não deixem que elas cheguem à situação de Sodoma e Gomorra. Combatam os atos secretos, o tráfico de influência, o nepotismo, o patrimonialismo, as doações ocultas de campanha, o clientelismo, em fim, combatam a corrupção generalizada na política brasileira. Aliás, passamos pela Câmara e presenciamos o discurso do Chico Alencar, denunciando essas irregularidades, atribuídas, também, ao Sarney, presidente do Senado. Gostamos. Nessa luta o Senhor Deus estará sempre presente.

Os homens foram embora e nós continuamos na Campanha Ficha Limpa, tentando livrar nossas instituições políticas daqueles que envergonham a nação, espalhando a corrupção, contaminando nosso povo, atrapalhando a construção da sociedade justa e causando irritação no Senhor Deus e nas pessoas de bem e de boa vontade, que são muitas em nosso país.

Edmílson Martins de Oliveira (Rio, setembro de 2009 )

terça-feira, 15 de setembro de 2009

SAUDADES DO BANCO DO BRASIL

Edmilson Martins

Tenho saudades do Banco do Brasil do passado. Não é saudosismo, mas saudade terna, memória viva, boas lembranças que bem poderiam iluminar o presente. Dizia-se que o banco era uma mãe. Havia verdades nessa observação, embora, em alguns momentos, agisse como madrasta, digamos, generosa. Mas, de um modo geral, o banco era pai e mãe, generoso para com seus funcionários, valorizados como parte integrante do seu patrimônio.
Toda a trajetória de vida no Banco do Brasil começava na preparação para o concurso. Eram pelo menos quatro anos de estudo específico - a duração de um curso universitário. Não havia exigência de conclusão do Ensino Médio, (ou Científico, naquela época). Muitos foram aprovados no concurso apenas com a conclusão do Curso Ginasial ( hoje, Fundamental). Mas as matérias exigidas eram as do Ensino Médio: Português, Matemática, Contabilidade, Francês, Inglês e datilografia. Era um concurso difícil. Os candidatos tinham que estudar muito. Quem podia pagava cursinho, quem não podia estudava sozinho. Eu, por exemplo, estudei sozinho. Foram longas noites e longos fins de semana de estudo. As provas eram assim: uma redação, questões de gramática, dez problemas de Matemática, dez questões de Contabilidade, textos de Inglês e Francês para traduzir. Datilografia, 150 toques, mínimo, por minuto, com duração de 6 minutos. As provas valiam 100 pontos cada, com média geral de 60 pontos. Todos os rascunhos acompanhavam as provas e, em Matemática, os problemas tinham que ser desenvolvidos no rascunho.
A aprovação no concurso era uma grande emoção, porque era a realização de um sonho. Era, talvez, o melhor emprego do país. A emoção era ampla. Emocionava-se o candidato, emocionava-se a família, emocionavam-se os amigos. Lembro-me que meus pais espalharam entre todos os seus amigos e parentes: “Edmílson, nosso filho, passou no concurso do Banco do Brasil!”. Era uma festa.
No banco, a emoção da posse e do primeiro dia de trabalho. O ambiente era de boas vindas, com apresentações aos colegas mais antigos, que tratavam de favorecer a ambientação do novo colega. O ambiente de trabalho facilitava o relacionamento entre os colegas, era fraterno. O banco pagava bem. Eram três salários de gratificação anual, mais o décimo terceiro e, às vezes, tinha uma gratificação extra. E havia licença-prêmio- três meses a cada cinco anos-, cinco dias de abono por ano e aos dez anos de trabalho, o funcionário tinha direito a se inscrever para adquirir o financiamento da casa própria pela Previ. O empréstimo acontecia, geralmente, entre um e dois anos após a inscrição. Havia um Quadro de carreira regular, com promoções automáticas.
Além das vantagens financeiras e das boas condições de trabalho, o novo funcionário já encontrava no Banco do Brasil uma tradição de luta do funcionalismo em defesa dos seus direitos e do banco, enquanto instituição dedicada ao serviço do povo e ao desenvolvimento do país. A Previ, a Cassi , outras organizações sociais e a manutenção, por muito tempo, de uma estrutura salarial sólida, são frutos dessa luta, empreendida através da história.. Foram muitos, e acho que ainda hoje são, os lideres sindicais, políticos, sociais e os valores acadêmicos, artísticos e literários surgidos entre o funcionalismo do Banco do Brasil. Não foi por acaso que a repressão da ditadura militar agiu com tanta violência dentro do banco, punindo, demitindo e prendendo funcionários ativistas.
Tomei posse no banco em 1963, na Agência Madureira-RJ, depois transferido para a Agência Centro-Rio, onde me aposentei em 1987. Participei ativamente do movimento sindical e até fui presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, em 1972 – bem no tempo da “ditadura escancarada”(como diz Hélio Gaspare). Foi em função dessa participação que escrevi o livro “Bancários – Anos de resistência -1964-1979”, editado pelo Sindicato dos Bancários –RJ.
Foram 30 anos de vida bancária, com 24 anos no Banco do Brasil. Foram 30 anos de aprendizado, de boa convivência, de luta, de alegrias e decepções, de vitórias e derrotas, sem dúvida, com saldo positivo. Valeu a pena? Respondo com o poeta Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”.
Com as mudanças havidas no banco e no tratamento aos seus funcionários, em decorrência da implantação do Sistema Neoliberal, que prioriza o lucro, em detrimento dos valores humanos, a situação mudou... pra pior. Não sei se os colegas que se aposentarão no futuro guardarão as mesmas saudades que guardo do passado, como funcionário daquela instituição. Mas acho que o funcionalismo de hoje pode e deve lutar com todas as suas forças e a capacidade que tem, para que a sua vida no banco deixe saudades que sejam memória viva para as futuras gerações. O Banco do Brasil sempre foi, e creio que é e sempre será um celeiro de cidadãos e cidadãs conscientes da sua cidadania e dedicados ao crescimento humano da nossa sociedade e ao desenvolvimento do nosso país. Que assim seja .
Edmílson Martins de Oliveira
Rio de Janeiro, novembro de 2006.

RESGATAR OS VALORES DA NOSSA HISTÓRIA

Edmílson Martins

Julho de 1964. O tempo estava nublado e frio no Rio de Janeiro. Em todo o país, também, o tempo político andava nublado e a temperatura morna, em conseqüência do golpe militar iniciado no dia 31 de março e completado no dia da mentira – 1º de abril, evidenciando que a chamada “Revolução Redentora” significava uma grande mentira.
Num certo dia daquele mês de julho, na agência do Banco do Brasil, na Tijuca, estava eu diante do inspetor da Comissão Geral de Inquérito que apurava a participação de funcionários do Banco do Brasil nas greves de bancários. A participação social e política dos bancários fora intensa nos anos anteriores ao golpe. Eu tinha feito um requerimento de férias, que precisava do “de acordo” do inspetor.
- O senhor participou da última greve de bancários, certo? – perguntou o inspetor (sisudo, autoritário e arrogante), com uma lista de nomes sobre a mesa.
- Certo – respondi.
- Mas o senhor, com menos de um ano de Banco do Brasil, já participando de greve?
- Sim, a greve era para todos os bancários, independente do tempo de trabalho.
- Mas a greve foi decretada pelos comunistas!
- A greve foi decretada pela categoria bancária, em assembléia com mais de 15 mil bancários – retruquei.
- O senhor foi induzido pelos comunistas?
- A minha participação foi consciente e espontânea. Questão de reivindicação e defesa de direitos trabalhistas.
- Por que, se os funcionários do Banco do Brasil já ganham bem? – indagou o inspetor – já em voz alta e tom autoritário.
- Por respeito a uma decisão da assembléia e porque entendia ser a greve justa – respondi.
- Mas a greve era política – falou o inspetor, repreensivo, como se política fosse crime.
- Para mim, a greve foi uma decisão extrema, motivada pela intransigência dos banqueiros, diante das justas reivindicações dos bancários.
O inspetor manuseou as folhas de papel, verificou alguns nomes sublinhados de vermelho e perguntou se eu conhecia alguns deles. Respondi que conhecia todos. Eram colegas do Banco do Brasil e sindicalistas.
Parou de fazer perguntas, anotou alguma coisa na lista de nomes, olhou para mim, denotando algum espanto e (talvez) simpatia e disse:
- Pode ir colega. Boas férias.
Despedi-me e saí da sala. No corredor, encontrei um colega, que me contou que ao ser interrogado pelo inspetor dissera que a sua participação nas greves teria sido para desestabilizar o Governo João Goulart, que servia ao comunismo. Havia mesmo um esquema para desestabilizar o governo, organizado pelo sistema capitalista. É triste saber que trabalhadores participaram daquela terrível manobra.
Quando voltei para a agência de Madureira, onde trabalhava, encontrei os colegas apreensivos, porque também tinham participado das greves.
- O que o inspetor quis saber? – indagavam uns.
- Houve alguma ameaça de punição? Indagavam outros.
O clima era de frustração. O medo tomava conta de todos (medo que até hoje reflete na sociedade). A ditadura se estabelecia, impondo a derrota, a frustração e o medo. Pela mentira, pela força bruta, pela covardia.
A mim e a outros companheiros que buscavam resistir ao golpe, muitos diziam, como na música “Ronda” de Adoniram Barbosa: “Desistam, essa busca é inútil.” Mas não desistíamos. Foram 20 anos de resistência, de enfrentamentos, com perseguições, prisões, torturas, mortes, “cenas de sangue” – não “em um bar da Avenida São João”, mas nos porões da ditadura -, vitórias e derrotas.
Naqueles tempos de luta e resistência havia motivações e referências históricas vivas, que animavam toda a caminhada como: a resistência dos vietnamitas ao império americano; a revolução cubana, enfrentando heroicamente a ofensiva americana; o posicionamento da Igreja Católica, tendo à frente o papa João XXXIII, na defesa da justiça social, com as encíclicas sociais “Mater ET Magister”, “Pacem in Terris” e “Populorum Progressio”; as figuras históricas e combativas de d. Helder Câmara, do pastor americano Martin Luther King, do “pequeno” grande general vietnamita Giap – a raposa das selvas -, do bravo Che Guevara, etc. Entre nós permaneceram vivos o idealismo e combatividade de muitos companheiros sindicalistas, líderes populares e políticos. Uns ligados ao pensamento marxista e outros aos ideais cristãos, participantes de movimentos sociais da Igreja Católica. Todos imbuídos do sentimento de participação na pluralidade e universalidade, propostos pela Igreja, tendo em vista a coexistência pacífica entre pessoas e povos de boa vontade.
Nesse sentido, ressalte-se a compreensão e disposição de Luiz Maranhão, líder marxista que se empenhou, junto com Alceu de Amoroso Lima, pensador e líder católico, d. Hélder Câmara e outras lideranças , pela unidade de marxistas, cristãos e pessoas de boa vontade pela defesa das liberdades democráticas.
Entre outros exemplos que são referência histórica, podemos citar d Eugênio Sales, que sendo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro , sem alardes, de maneira discreta, acolheu e ajudou milhares de refugiados políticos, perseguidos por ditaduras latino-americanas, usando o cargo de cardeal a serviço do bem, como foi ensinado por Jesus Cristo; D. Evaristo Arns, cardeal de São Paulo que encabeçou o grupo “Tortura Nunca Mais”, denunciando os crimes da ditadura militar, etc.
Os ambiciosos do poder, do dinheiro e do lucro, impõem, hoje, uma “nova” ideologia, uma “nova” cultura. Substituem o “penso, logo sou” pelo “sinto, logo sou”, e pelo “consumo, logo existo”, que significa trocar os valores perenes pelos passageiros, pelo “aqui e agora”. Significa substituir o pensamento, a reflexão pelo sensível corporal, pelo consumismo. Daí o desprezo pelos valores do passado, pelas figuras que plantaram as bases da nossa História. São os valores da chamada sociedade pós-moderna, que estimula simplesmente o consumo e o prazer. Isso atende em cheio aos interesses gananciosos do capitalismo neoliberal, que considera o ser humano simplesmente como instrumento de lucro e dominação.
Por isso, rompendo o esquema do capitalismo neoliberal, precisamos resgatar os valores da nossa História, necessários para animar o nosso povo na luta pela construção da sociedade livre e democrática.
Por exemplo, o que mantém viva a doutrina cristã, apesar das distorções de muitos dos seus seguidores, é a guarda cuidadosa da memória de Jesus, da sua luta e de seu sacrifício pelo bem da humanidade. Também a guarda da memória e do testemunho dos verdadeiros discípulos, que ao longo da História, com muitos mártires, empenharam-se na construção do projeto de sociedade, onde todos tenham vida em abundância, proposto pelo Mestre Jesus.

Rio, março de 2009
Edmilson Martins de Oliveira

REMOVENDO PEDRAS

Edmílson Martins

Edmílson Martins de Oliveira - julho de 2009

Quando eu era criança, ouvia histórias contadas pelos mais velhos. Histórias vividas por eles e por seus antepassados. Ouvia também as chamadas “estórias de Trancoso”: ficções com sabor de realidades. Lições de vida, transmissão de experiências e sabedoria passadas aos mais jovens. Hoje, já passando dos 70, percebo o quanto aqueles contadores de histórias e de estórias influenciaram no meu aprendizado. Por isso, hoje, eu conto histórias:
A partir do final de 1968 e durante os anos de 1970, principalmente no governo do general Médice, intensificou-se a repressão aos movimentos populares que resistiam à ditadura militar. A luz que se vislumbrava no final do túnel foi ofuscada por enormes pedras colocadas no caminho. O nosso país voltava à escuridão, dessa vez, total. O povo, que antevia uma luz, ficou nas trevas.
A perseguição política aos que não concordavam com o regime opressor atingiu duramente o povo brasileiro. Movimentos organizados foram desmantelados, ativistas foram presos e muitos, além de presos, torturados. Vários foram os assassinatos nos cárceres, praticados por carrascos do sistema da opressão. Outras pessoas, para não serem presas ou morrerem, exilaram-se. Foram silenciadas as principais lideranças do povo, que ficou sem vez e sem voz.
Mas o regime ditatorial não conseguiu calar a voz de todos. Muitos, mesmo na escuridão, procuraram organizar a luta de resistência. Tateando, procuraram tirar fogo das pedras, juntar gravetos e acender fogueiras. Com o uso da sabedoria e da criatividade, começaram a luta para remover as pedras do caminho em busca da luz.
Certa vez, a madre Teresa de Calcutá foi criticada por um jornalista:
- Irmã, com esse seu trabalho de assistência aos pobres, a senhora só está legitimando a exploração capitalista.
A madre, com a serenidade de quem, com convicção, fez a opção cristã pelos pobres, perguntou ao jornalista:
- Meu filho, quando a luz de sua casa apaga-se o que você faz?
- Acendo uma vela – respondeu o jornalista.
- Pois o mundo está sem luz e eu estou acendendo minha vela, acenda a sua também – devolveu a irmã.
Então era o que tínhamos que fazer: acender velas, porque o nosso país estava nas trevas. E cada um de nós devia fazer a sua parte. No escuro é que não podíamos permanecer. A escuridão provoca medo, produz incertezas, cria fantasmas, dá a sensação de insegurança. As pessoas, sem a luz, perdem o rumo, ficam confusas e, muitas vezes entram em pânico e perdem a noção do equilíbrio e desanimam. Era preciso agir e rápido, não deixar que o desânimo tomasse conta de todos.
Em casa, conversávamos eu e a Maria José sobre o que fazer. Eu tinha sofrido 46 dias de prisão por ser presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro. A entidade estava sob intervenção do governo e a categoria bancária intimidada por força da perseguição política. Outras organizações populares estavam desmanteladas, os partidos políticos controlados. Até na Igreja estava difícil conversar sobre a realidade social e política do país. Estava difícil reunir até mesmo os ativistas que escaparam da grande tribulação.
Mas alguma coisa precisava ser feita. Não seria um poder medíocre, movido pela ganância, pela força do dinheiro e da injustiça que se sobreporia ao poder das ideias, da justiça e da esperança. Nossa convicção estava na força transformadora do Evangelho, que nos ensina: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. “Sede prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (MT 10). E mais: “No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33). E “Vós sois o sal da terra e luz do mundo”. E “Passará o céu e a terra, mas minhas palavras não passarão”. São palavras do Mestre Jesus. Não haveria, portanto, nada a temer.
Lendo “Atos dos Apóstolos”, escrito pelo evangelista Lucas, refletimos sobre a ação dos primeiros cristãos, que se reuniam em casas de família para a oração, partilha e reflexão sobre os ensinamentos de Cristo, buscando forças para a missão que deviam desempenhar: a mudança do mundo. E chegamos à conclusão que podíamos reunir pessoas em nossa casa. Tínhamos que nos conscientizar dos dons do Espírito Santo e sermos criativos..
Levamos nossas reflexões a outras pessoas. Faríamos reuniões em casas de família. A princípio, em festinhas de aniversário. Enquanto comemorássemos, conversaríamos, analisaríamos a situação política e buscaríamos saídas. Inicialmente, o importante era reunirmos pessoas, juntar o rebanho disperso pelo ataque dos lobos. E começamos em nossa casa. Juntamos muitos amigos, independente de credo ou convicção política.
Com o tempo, as pedras foram sendo retiradas e as visões se clareando. Nas relações familiares estabelecemos uma trincheira de luta contra a ditadura. Nessas reuniões, podíamos reunir até os companheiros mais visados pelas forças da repressão. Com alguns ativistas, as discussões foram-se aprofundando. Com o pessoal da Igreja discutíamos o compromisso social dos cristãos, cuja missão é impregnar a sociedade do sentimento de solidariedade, justiça, esperança, liberdade e paz. Nessa reflexão tivemos a ajuda de alguns sacerdotes comprometidos com a Doutrina Social da Igreja. Nesse momento, a Igreja já começava a assumir a defesa do povo, reclamando o respeito aos direitos humanos.
E não podíamos deixar de aprofundar essas discussões com companheiros do movimento sindical, principalmente bancários. Inicialmente eram poucos, uns oito. Quase todos motivados por ideias marxistas, eram pessoas de boa vontade, com muita sede de justiça. Eram companheiros de luta, vítimas da perseguição política da ditadura militar.
Nós tínhamos plena consciência dos ensinamentos do Evangelho, dirigidos a todos os seres humanos. “Glória Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade” - disseram os anjos aos pastores, ao anunciarem o nascimento de Cristo. Lembrávamos também do sermão da Montanha, que dizia: “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.”; Bem aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. Aqueles companheiros estavam enquadrados nesses princípios evangélicos: eram homens de boa vontade, integrados na luta pela justiça social, por isso, sofriam perseguições. Eram homens de bem, companheiros de luta. Podíamos e devíamos acolhê-los em nossa casa. Tínhamos que andar todos juntos.
Assim, a nossa casa transformou-se num centro de resistência à ditadura. A princípio, com o país ainda no escuro, tateávamos, com reuniões disfarçadas. Mas, à medida que as pedras iam sendo removidas, a luz aparecia e as reuniões tornavam-se mais abertas e amplas E, a partir de reuniões como as nossas, cresceu o movimento de articulação, que muito contribuiu para a conquista da reabertura democrática.
Estou contando essas coisas, não por simples lembrança, ou saudosismo, mas para valorizar a nossa memória e dizer que as pedras ainda não foram totalmente retiradas e a luz do final do túnel ainda não resplandece completamente. Dia após dia, os inimigos da liberdade colocam pedras no caminho, tentando obstruir a caminhada do povo rumo à liberdade plena. O trabalho de remoção é permanente e deve reunir sempre, em mutirão, todas as pessoas que lutam pela liberdade, todos os homens e mulheres de boa vontade.

OS GAROTOS PÓS DITADURA

Edmílson Martins

Eles tinham 10, 15, 18, 20 anos..., no final da ditadura militar, em 1985. Eu e muitos companheiros lutáramos durante mais de 20 anos pelo restabelecimento das liberdades em nosso país. Enfrentáramos prepotência, sofrêramos perseguições, prisões, torturas e mortes, tudo para que eles pudessem participar livremente como cidadãos.
Com alegria, já os víamos participando do movimento de organização dos grêmios estudantis, centros acadêmicos e da União Nacional dos Estudantes. Nos colégios, quando não podiam se reunir nas salas, por causa da repressão dos diretores, reuniam-se no pátio, na hora do recreio.
Em 1985, já participaram do movimento pelas Diretas Já. Ficávamos contentes quando os víamos interessados em participar das discussões políticas, das campanhas eleitorais e do Movimento Popular.
Quando, em 1979/80, surgiu o PT com propostas de mudanças e participação popular, lá estavam eles nos núcleos de base e atividades de rua. E, em 1989, na candidatura de Lula a presidente da República, que trazia um projeto de renovação, a participação dos jovens foi maciça, com entusiasmo contagiante.
Em 1991, foram eles para as ruas, aos milhares, exigir o afastamento do presidente Collor. Já mostravam consciência política e desejo ardente de exercer a cidadania
Hoje, o PT e outros partidos que incentivavam a participação cidadã e a organização permanente dos Movimentos Populares estão no poder. Mas não há mais núcleos de base, nem atividades de ruas. Não há grêmios, não há movimento estudantil. Aqueles meninos de 10, 15, 18, 20 anos, hoje têm entre 33 e 43 anos e deviam estar nos sindicatos, nos partidos políticos, nos movimentos populares. Os meninos de hoje, entre 10 e 20 anos deviam estar no Movimento Estudantil e nas atividades políticas e sociais. Não estão.
O que aconteceu? Onde estão os nossos jovens e adolescentes? Já não ouvimos mais os seus gritos nas ruas, suas algazarras. Não vemos mais sua rebeldia cidadã, sua participação coletiva. Ai da sociedade cuja juventude silencia! O futuro será sombrio.
Os que hoje estão no poder e que defendiam a abertura democrática e dos canais de participação coletiva, necessários para o crescimento da sociedade parecem que esqueceram suas raízes e traíram os princípios pelos quais lutaram. E são, em grande parte, responsáveis pelo refluxo da organização dos movimentos populares. Pois o incentivo ao desenvolvimento da organização popular, o fortalecimento dos sindicatos de trabalhadores, a criação de espaços de participação coletiva dos jovens, tudo foi inexplicavelmente suspenso. Ou, talvez, tudo tenha sido propositalmente suspenso. Para atender a que interesses? Tudo isso merece uma séria reflexão e responsabilização. Há que haver explicações.
Na trajetória de combate à ditadura, cantávamos as músicas “apesar de você”, “Pra não dizer que não falei de flores”, “O bêbado e o Equilibrista”, “Cálice”, “O que será que será”, “Sabiá”, etc. Será que vamos ter de cantar tudo de novo? Ou nunca devíamos ter parado de cantá-las?
“Caminhando e cantando e seguindo a canção”... ”Apesar de você...” ”Vai passar nessa avenida um samba popular...” “Como é difícil acordar calado...” “Não há de ser inutilmente a esperança...” ”E todos os meninos vão desembestar...” “E todos os destinos irão se encontrar...” E assim por diante.

Rio, 20 /01/2009 E

O MESMO PALCO, AS MESMAS TRAGÉDIAS

Edmílson Martins

Sábado, 8 horas da manhã, no centro da cidade, Av. Presidente Vargas, ao lado da igreja da Candelária. Embaixo de marquises de prédios onde funcionam bancos- poderosos agentes do mercado financeiro- crianças, jovens e adultos amontoados no chão, dormindo.
Ia eu passando e de repente um garoto:
- Tio me dá um trocado aí?
- Pra que você quer um trocado?
- Pra tomar um café, tô com fome, tio.
- Olha aqui, o pessoal da prefeitura está tirando os meninos das ruas, certamente, oferecendo uma vida melhor. Não chegaram até você e seus amigos aí?
- É ruim, tio, eles maltratam a gente! Não quero sair daqui não!
- Quem maltrata vocês?
- Esses home do governo, tio.
Aí eu me lembrei do triste episódio ocorrido em 1963, no governo Carlos Lacerda. Com o pretexto de “limpeza” da cidade, muitos mendigos foram retirados das ruas. Vários deles apareceram mortos no Rio da Guarda. Foram colocados dentro de sacos de estopa, amarrados e jogados no rio.
Lembrei-me também que, ali, ao lado da igreja da Candelária, naquele ambiente contraditório de instituições financeiras, que acumulam grandes fortunas, de crianças de ruas que passam fome e dormem ao relento, muitos fatos ocorreram nos últimos 40 anos. Fatos que denunciam muito bem as contradições do modelo de sociedade predominante em nosso país há centenas de anos.
Naquele palco do centro financeiro, foram organizadas, entre 1960/63, grandes greves de bancários, que denunciavam a ganância dos banqueiros, reivindicavam um novo modelo econômico e melhores condições de vida.
Em 1968, ao redor da igreja da Candelária, presenciei a ação da cavalaria do Exército, espancando e pisoteando pessoas que saíam da missa de sétimo dia do estudante Edson Luís do Nascimento, que fora morto pela polícia, na repressão ao Movimento Estudantil.
Em 1993, bem ao lado da igreja, aconteceu a terrível “chacina dos meninos da Candelária”. Oito meninos foram covardemente assassinados pela polícia, enquanto dormiam.
Os tempos mudaram, mas não mudou a realidade. Profundas contradições continuam marcando a nossa sociedade. Hoje, presenciamos, naquele mesmo ambiente financeiro, ao lado da igreja da Candelária, ironicamente, meninos, meninas, jovens e adultos que passam fome e dormem embaixo de marquises de grandes edifícios, onde permanece o mesmo poder econômico que continua determinando o modelo de sociedade em que vivemos: injusto, perverso e excludente. São moradores de rua, que não aceitam ser recolhidos pela prefeitura porque têm medo de que aconteça com eles o mesmo que aconteceu com os mendigos da época do Governo Lacerda.
Triste a sociedade que não confia em seus governantes. Tristes os governantes que não inspiram a confiança dos seus governados.
E o garoto falou:
- É ruim, tio, eles maltratam a gente!

Rio, 14 de janeiro de 2009

O MENINO DA GRUTA

(Edmilson Martins de Oliveira)

Lá estava Ele. Agasalhado numa manjedoura, no calor do feno. Vigoroso, olhinhos brilhantes, batendo com os pezinhos, mãozinhas buliçosas, acenando para os animais, que estavam presentes, dando boas-vindas ao seu criador.
O galo rapidamente anunciara: “Cristo nasceu”!! A vaca perguntara: “Onde”! A ovelha respondera: “Em Belém”! E logo os animais se reuniram em volta do recém-nascido. De humanos somente seus pais: José e Maria.
Estava ali o Menino Deus, que visitava seu mundo, seu povo e as demais criaturas, acolhido pelos animais e pela natureza. Atônito, ao ver a realidade da humanidade, dedo em riste, interpelava os seres humanos: “O que vocês fizeram com o mundo? Fiz tudo certinho. “Criei a terra, enchi rios, fiz as serras, não deixei nada faltar”. E eis o que vejo: “tanto horror perante os céus”. Ódios, vinganças, guerras fratricidas, irmãos matando irmãos, homens escravizando outros homens. Criei todos iguais. Por que tanta desigualdade? Criei tudo para todos. Por que alguns têm mais do que necessitam e muitos passam necessidades? Com tantos bens, tanta fartura, como podem crianças morrerem de fome? Vocês maltratam os animais e depredam a natureza que criei com tanto carinho. Coloquei vocês no mundo para o administrarem e serem felizes, amando e vivendo a vida. Mas vocês não se amam, não escolheram a vida, por isso são infelizes.

Os animais o ouviam, o louvavam e o aplaudiam. E o Menino continuava na sua admoestação: “Vim visitá-los e queria encontrá-los em harmonia com vocês mesmos, com a natureza criada e com seu criador. Mas só vejo desarmonia. Tudo criei e não encontrei uma casa para nascer. Meus pais bateram de porta em porta e não encontraram acolhimento. Oh! Deus, que horror! Parei de insistir. Resolvi nascer entre os animais. Esses sim, são fiéis, simples, vivem em harmonia com a natureza e com seu criador. Estão aqui ao meu lado e me reverenciam. Ah! os pastores – homens simples como as ovelhas – também estão aqui. Vejo que são exceção. São “civilizados como os animais”.
“Pois bem, - continuou o Deus Menino - vim visitar o mundo, esperando uma grande festa de recepção e o encontro assim: bagunçado, desordenado, dilacerado. Venho aos meus e não sou recebido. Como já disse, criei tudo, não deixei nada faltar e nas casas não posso entrar. É duro! É difícil aceitar isso!”
E, diante de José e Maria – seus pais -, dos pastores, dos animais e dos magos, que tinham acabado de chegar, guiados pela estrela, que indicava o nascimento de um grande rei, ponderou, na sua infinita misericórdia, o Deus Menino: “Acho que vocês, precisam nascer outra vez. Começar tudo de novo. E, apesar da péssima acolhida, da incompreensão e da infidelidade, quero dizer que os amo e quero ajudá-los a se reabilitarem. Vocês têm capacidade de reabilitação, pois assim os criei. Posso lhes dizer que, apesar da queda, tudo pode ser recomeçado. Vocês podem reconquistar a felicidade. Embora possam ser interrompidos antes de terminar, não tenham medo. Façam sempre da interrupção um caminho novo, do sonho uma ponte e da procura um encontro, pois no final da caminhada temos um encontro marcado no Reino de Deus, onde não haverá desarmonia nem tristeza”.
Essa foi a mensagem trazida por aquele Menino nascido na gruta de Belém, na simplicidade dos animais. Ali surgiu o recomeço, a pedra fundamental para o reerguimento da humanidade, a luta pela construção do Reino de Deus - o Reino da justiça, do amor e da paz. E nós somos todos operários dessa construção. “Operários em construção”. Com o Menino da gruta, começa uma Nova História e nasce a esperança de um mundo novo, a ser construído com a participação de todas as pessoas de boa vontade. Por isso, os anjos disseram: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. A partir do nascimento na gruta, muitas coisas aconteceram e estão acontecendo e acontecerão...HH

Água Santa (RJ), 30/12/2008
Edmilson Martins de Oliveira