quarta-feira, 23 de outubro de 2013

MINHA CANÇÃO








MINHA CANÇÃO

Por Maria José Martins de Oliveira e Edmílson Martins
Outubro/2013

Nasci na beira do rio
Tenho saudades de lá
Já não vejo água correr
Pois estou perto do mar.

Lá na minha Barra Mansa
Vivi toda minha infância
A vida lá era boa
Singela como criança.

A criançada brincava
Tomava banho de rio
Feliz a todo momento
Fosse sol, calor ou frio.

Pensando com meus botões
Bem contente morei lá
Aqui já não vejo rio
Só vejo águas do mar.

Não permita Deus que eu morra
Sem que um dia volte lá
Para rever tantas coisas
Que não encontro por cá.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

AS ENCHENTES DO PARAÍBA


   Enchente que atingiu Barra Mansa em 1966 (Av. Presidente kenedy)
 
AS ENCHENTES DO PARAÍBA
 
            Maria José Martins de Oliveira
             e Edmílson Martins
              
                   Rio, Outubro de 2013.
 
Às margens do Paraíba
Algumas casas havia
Que ficavam inundadas
Quando o rio muito enchia
Famílias em perigo
Exército socorria.
 
Soldados bem solidários
Enfrentavam as enchentes
Com muita disposição
No ombro levavam a gente
Para dentro do quartel
E ficávamos contentes.
 
Crianças se divertiam
Muito felizes ficavam
Adultos preocupados
Quando meninos brincavam
Os grandes ficavam tristes
Os pequenos se alegravam.
 
Nos ombros da soldadesca
A gente descontraía
Quando no meio das águas
Alguma cobra surgia
Muitas emoções sentíamos
Naquela tal travessia.
 
Lá no quartel alojados
Éramos bem recebidos
Com lanches e dormitório
Para todos bem servidos
Crianças muito contentes
Brincavam com alaridos.
 
Tudo era novidade
Para toda a criançada
Brincávamos nos vagões
Juntos com a bicharada.
Galos, galinhas, cachorros,
Gatos e passarinhada.
 
Quando a enchente passava
E tudo voltava ao normal
Os grandes ficavam bem
Pequenos ficavam mal
Pois terminava a aventura,
O momento especial.

domingo, 20 de outubro de 2013

CELULARES III





Maurício Pássaro

CELULARES III
Tá ligado?

              Maurício Pássaro

A reunião estava marcada para as nove. Cada diretor, diretamente de sua filial, em seu estado, participando da teleconferência. Ao vivo e em cores. Tempo real. A era da tecnologia.
...
O Chefe estipulou uma pauta. Assuntos importantes deveriam ser tratados, demandas estratégicas, novos nichos de mercado, a logística do transporte... O chefe pensa em tudo.

Doze telas são abertas e nelas doze representantes, aqueles que dirigem o negócio fora da matriz (e são conhecidos como "os apóstolos"). O Chefe quer saber por que o grupo de clientes do setor Sul não fechou contrato. E logo se apresentou alguém, numa das telas, para explicar as razões:

- O Departamento jurídico. Advogados demais...
- Realoque metade deles para o setor de fronteiras.
- Certo, Chefe.

A Phirma tinha prestígio no mercado, tinha solidez. E também a melhor estrutura de informática – hoje, o calcanhar-de-aquiles de qualquer empreendimento de sucesso. O Chefe foi orientado, por um supervisor, a investir em equipamentos eletrônicos de última geração, talvez um satélite próprio ou um acelerador de partículas. Quem imaginaria, não muito tempo atrás, que uma reunião importante de negócios pudesse acontecer virtualmente, com os participantes reais interagindo de longe? Economia fantástica de tempo. Os engarrafamentos de trânsito causam prejuízo de bilhões de reais, e os homens sérios de negócio não têm direito a esse luxo.

A concorrência não dá tréguas: ela obriga o Chefe a seguir os passos tecnológicos. A espionagem avança no mundo, ele teve que desenvolver sistema de segurança para bloquear os hackers da Casa Branca. E depois que a roda redonda se mostrou melhor e mais eficiente que a roda quadrada, quem vai continuar com a primeira? Pois, o Chefe adora inovação. É homem de visão. Poucos assim, neste mundo.

Por isso, depois que o governador mandou instalar o bloqueador de sinais de celular nos presídios, não teve jeito, o Chefe teve que fazer investimento em T.I. De um presídio de segurança máxima, ele administra seus negócios pelo país e o mundo. Assaltos, sequestros, golpes do telefone, campanhas eleitorais, lobbies em legislativos, muita coisa.

Diretores e gerentes regionais da Phirma já propuseram ao Chefe outro endereço para se estabelecer, mas ele é esperto: em que outro lugar usufruirá a segurança máxima e a tranquilidade para trabalhar sossegado?

O Chefe está achando o mundo muito violento. E o trânsito...



Maurício Pássaro


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celulares II


 

Mauricio Pássaro


18 de outubro

CELULARES II
Tá ligado?

O tempo passou, o cara não ligou mais pra ela. Coisa de desocupado. Vai ver, encontrou o que fazer e não amola mais. Entretanto, numa tarde de chuva, mesmo com os sinais de celulares pegando mal, o aparelho da moça disparou, o amarelo novamente, resolveu tocar, dentro do coletivo: refrão de um clássico de Michel Teló. Ela aguardava telefonema de amiga.
...
- Alô! Ledinha!

Não, não era a Ledinha. Voz grave, de homem. Número desconhecido. Era ele, o mal educado, depois de algumas semanas.

- Olá. Quanto tempo! Quer dizer, estivemos ontem, no mesmo ônibus...

- Escute aqui, você tem que parar com isso. Vou dar queixa na polícia!

- Calma. Só liguei pra saber como está o seu cãozinho, o Tutuia. Ele melhorou?

- Tutuia é o nome meu namorado!

O interlocutor desconhecido fazia confusão. Do jeito mimado que ela falava, naquele outro dia ao celular, parecia que estava em diálogo com o seu cachorrinho.

- Você é possessiva. A gente conhece uma mulher possessiva, pela voz.

- Ora, essa. Eu? Possessiva? Não tenho que lhe dar satisfações! Além do mais, o namorado é meu e...

- Tá vendo... Ele é “seu”. Já que você nos participou a conversa – alugando os ouvidos de quarenta e dois passageiros, mais o motorista e o trocador, e mais tantos desencarnados, pois eu sou espírita – acho que posso também dar uma sugestão. Deixe o Tutuia jogar bola com os amigos, pela manhã, nos fins de semana. É coisa de homem. Depois ele volta. Cansado e perfumado de cachaça, mas volta. Mas, se você encher muito o saco dele, ele vai embora.

Ela não estava acreditando em tamanha petulância. Não se conteve e arremessou o celular na bolsa, naquela região onde cabe o infinito, uma espécie de buraco negro interdimensional. Uma vez o cãozinho se escondeu na bolsa e só anunciou presença quando ela se sentou à mesa do restaurante, na hora do almoço.

Maurício Pássaro
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CELULARES I



CELULARES I
TÁ LIGADO?

 Maurício Pássaro



Veríssimo, o Luis Fernando, já nos revelou que faz parte de um grupo seletíssimo, no mundo, que se recusa a usar esse aparelhinho que serve para tanta coisa, inclusive para falar com alguém do outro lado da linha. Somos dezessete – muito poucos, mas e daí?
...
Desproporcional, eu sei. Sem contar que grande parte dos usuários tem mais de um celular. Sem contar que existem os chineses. A luta é grande e consiste em escapar, o quanto possível, da necessidade de carregar o telefone móvel, pra cima e pra baixo, como fossem óculos. Não é fácil. Ele toca em qualquer lugar e quem fala nele, em via pública, esquece que não está em sua própria casa. Cinemas, teatros e reuniões de trabalho – nada escapa.

Ela estava em sua casa, arrumando a bagunça da semana, quando o dito cujo tocou:

- Alô?

- Alô. Você não me conhece, a gente pega o mesmo ônibus quase todos os dias...

- Quê?! Olhe, se for o golpe do sequestro, vou logo dizendo que sou professora da rede pública e não adianta...

- Não é sequestro, não. Eu sempre estou lá, descansando de um dia estressante de trabalho, em minha poltrona, olhando a paisagem na janela, quando o seu celular toca e você fala a viagem inteira. Já ouvi de tudo. Acho que o pior dia foi quando você passava uma receita de fígado de boi batido no liquidificador. O Ônibus se mexia muito, e eu quase pedi para descer, não fosse o meu MP3, em alto volume, e uma técnica de respiração que aprendi no Youtube. Semana passada, você disse, em voz alta, o número de um aparelho, e eu anotei. Agora, estou ligando. Tudo bem com você?

A moça tinha cinco celulares, cada qual com sua respectiva cor, para cada dia da semana. Nos dias inúteis da semana, usava o facebook. Foi o amarelo que tocou, e nele a voz de um estranho. Alguém que anotou o número do celular, enquanto ela se comunicava com outra pessoa. Tremenda falta de educação. Intromissão na vida alheia.

- Falta de educação?! Fala sério! Você fala alto ao celular, conta a sua vida toda, os detalhes, observações íntimas e picantes, enfia nos meus ouvidos um monte de besteira, e eu sou mal educado? Ah...! Passe bem, moça!

- Peraí! Alô...! Alô! O safado desligou. É número de orelhão. Que óóóódiooo...!

Fechou o aparelho e o colocou na poltrona vazia, ao lado. Ficou olhando, pensando, meditando. Se ele tocasse novamente, se fosse o sujeito mal educado insistindo... Ela teria já umas boas palavras para dizer. Absurdo. Onde já se viu?

Maurício Pássaro
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sábado, 19 de outubro de 2013

CELULARES IV

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Mauricio Pássaro
CELULARES IV
Tá ligado?

Mal a loja abriu, chegou uma senhora, de óculos, carregando chapa de exame médico, num envelope de plástico branco. Dirigiu-se ao balcão dos celulares.
...

- Bom dia.
- Bom dia, senhora. Em que posso ajudar?
- Eu queria um celular para...

O vendedor saltou de uma cadeira, atrás do biombo, pra melhor atender à freguesa.

- Temos todos os tipos, tudo o que a senhora imagina. Esse aqui, por exemplo, faz quase tudo. Até abridor de lata... kkkkkkk... Brincadeirinha. Mas, além de filmar, ele capta as ondas do pensamento. A senhora pode dormir, colocando esse fone especial, e quando acordar, poderá ver o que sonhou, durante a noite.
- Brincadeirinha?
- Não. É sério. Chega a captar até o famoso túnel de luz, aquele que os doentes veem quando estão alucinando, no CTI.
- Hummm...

Não, não era isso o que buscava. Ademais, não estava mais a ficar sonhando com a vida, não após conhecê-la a fundo, não depois de saber um pouco mais sobre a natureza humana.

- Claro, vejo que a senhora deseja algo mais simples. Deixe-me ver... Esse! Tem a tecla FPA – Função de Proteção Aérea. Se por um acaso um meteoro cortar a atmosfera, o aparelho avisa. Antecedência de 72 horas!

A possível compradora olhou o rapaz por cima dos óculos, com cara de “não-é-bem-isso”:

- Não é bem isso...
- Claro, a senhora me perdoe. Temos um modelo aqui... Esse mede a pressão arterial e ainda informa a quantidade de sal ou gordura no organismo. Semana passada, eu vendi três, um médico e duas enfermeiras...

Ela insistia:

- Não é bem isso...

Ele coçou o queixo, olhou a vitrine interna, e já era um olhar de desafio. Sim, aquela senhorinha ali procurava um aparelho especial, diferente. Com certeza, a idade determinava a escolha. Idosos são mais exigentes, já viram quase de tudo nas lojas da vida.

- Não é bem isso, senhora?
- Não é bem isso.
- Eu percebi.

Perder mais de trinta minutos com um cliente apenas é prejuízo – o vendedor tinha lido em algum lugar, um curso que baixou da web. De tudo conseguiu guardar essa lição. A senhora sorriu resignada:

- Deixa, meu filho, deixa pra lá.

O vendedor não sabia, mas tudo o que ele buscava era um celular do tipo que proporciona chamadas telefônicas. Já se dirigia à porta de saída, quando ainda tentou:

- Eu só queria um celular para telefonar e ouvir a voz da minha filha, que está longe. Só pra isso.

Então, o rapaz se desculpou humildemente, respeitando seus cabelos brancos, explicando que o tipo que ela queria estava em falta no mercado, e nem o modelo fabrica mais.



Maurício Pássaro
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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

MISSA DO GALO

                                                   
                                                  Igreja - Matriz de São Sebastião - Barra Mansa-RJ



MISSA DO GALO
          Maria José Martins de Oliveira
              C/parceria de Edmilson Martins
 
No meu tempo de pequena
Não podia imaginar
Que levasse tanto a sério
Coisas que ouvia falar
Fazem pouco das crianças
Que também sabem pensar.
 
Quero contar uma estória
Que comigo aconteceu
Numa noite de natal
Que para mim pareceu
Ser normal e verdadeira
Como o bom Jesus nasceu.
 
Falavam da grande festa
Que era a missa do galo
Eu ficava intrigada
E logo me deu um estalo
Fui correndo à sacristia
Pra ver o bendito galo.
 
Escapei da minha mãe
Que me dava proteção
Curiosa fui correndo
Por aquela escuridão
Pra ver algum galinheiro
Olhando com atenção.
 
Não encontrando o tal galo
Rápido voltei correndo
Pra junto da minha mãe
Que a reza estava fazendo
Com o seu terço na mão
E foi logo me dizendo:
 
Você sumiu minha filha!
Onde você se meteu?
Eu fui procurar o galo.
Meu Deus você não entendeu!
Sente aqui vou explicar
Que susto você me deu!
 
 
Meia noite Jesus nasceu
Então um galo cantou
E queria anunciar
Vinda do Nosso Senhor
Daí a missa do galo
Que rezamos com amor.
 
A explicação da mamãe
Me ajudou a compreender
Que ali não havia galo
E comecei a perceber
Que na tal “missa do galo”
Jesus iria nascer.
 
   Rio, outubro de 2013