
TRISTE
MADRUGADA...
Edmílson Martins
Novembro de 2020
O quadro político
reinante nos últimos tempos em nosso país, incluindo as eleições municipais de
2020 e as eleições presidenciais de 2018, me faz lembrar o samba “Triste
Madrugada”, de Jorge Costa, celebrizado nas vozes de Jair Rodrigues e Beth
Carvalho: “Triste madrugada foi
aquela/Que eu perdi meu violão/Não fiz serenata pra ela/E nem cantei uma linda
canção”.
Pois é, que triste
madrugada estamos vivendo na política do Brasil. Perdemos nosso violão: o povo
nas ruas, e não fazemos serenata para a Democracia. Não cantamos uma linda
canção. Uma canção para quem amamos, que sai do coração dizendo assim: “Abre a janela amor, abre a janela, dê um
sorriso e joga uma flor para nós”.
Parece que a nossa
namorada, prisioneira dos seus algozes, não consegue abrir a janela, não pode
dar seu lindo sorriso, nem pode jogar uma flor para nós. Estamos sem violão e
sem a namorada, tristes na madrugada.
Aliás, isso não é
novo. Há cinquenta e tantos anos, Chico Buarque, na sua linda canção “Roda
Viva”, já dizia: “Não posso fazer
serenata/A roda de samba acabou/A gente toma a iniciativa/Viola na rua, a
cantar/Mas eis que chega a roda-viva/E carrega a viola pra lá”.
Ontem, como hoje,
sempre a tentativa tirânica de impedir a prática da liberdade, a vivência do
amor, o exercício democrático da cidadania, a convivência pura com o que
amamos.
A perda do nosso
violão, isto é, do povo participando com o seu legítimo direito de exercer, com
ética e liberdade a cidadania, não nos deixa fazer serenata pra ela, pra
Democracia, nem cantar uma linda canção. As eleições têm sido uma serenata sem
violão. Com nossa voz rouca, sem eco, sem a ajuda do violão, a nossa namorada não
pode ouvir a nossa serenata. Nossa voz ficou sem eco. E não podemos cantar
aquela linda canção.
Mas vamos refletir com
Milton Nascimento, que há cinquenta anos, na canção “Travessia”, desprezava o
usurpador e retomava a caminhada, com coragem e ardor: “Vou seguindo pela vida me esquecendo de você/Eu não quero mais a
morte, tenho muito que viver/Vou querer amar de novo e se não der não vou
sofrer/Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu viver”.
E ainda com Chico Buarque, que também há cinquenta
anos, na canção “Apesar de Você”, semeava a esperança, lançando um grito de
alerta, com grave advertência:
“Apesar de você/Amanhã há de
ser/Outro dia/Eu pergunto a você/Onde vai se esconder/Da enorme euforia/Como
vai proibir/Quando o galo insistir/Em cantar/Água nova brotando/E a gente se
amando/Sem parar”.
Enfim, mesmo
sem violão, vamos em frente inspirados nesses versos da linda canção antiga “Malandrinha”, de 1927, que dizem ser do
compositor Freire Junior, eternizada na voz retumbante do cantor Francisco
Alves e de outros cantores da MPB:
“Acorda minha bela namorada/A Lua
nos convida a passear/Seus raios iluminam toda a estrada/Por onde nós havemos
de passar”.