Edmilson Martins de Oliveira
O texto “Torre de Papel” do jornalista e hábil escritor Ivan Alves Filho, no qual ele narra como aprendeu a escrever, como escreve e porque escreve, inspirou-me contar o processo de aprendizagem que me levou a hoje escrever razoavelmente.
Infelizmente, não tive ambiente cultural que me favorecesse o hábito de escrever. Até os doze anos de idade, vivi na roça, no seco e isolado sertão do Ceará, distante da escola e dos livros.
Alfabetizado, aos doze anos, iniciei estudos na cidade, mas o acesso aos livros e à literatura continuou precário até à conclusão do Segundo Grau. Até essa fase, já aos 21 anos, tinha lido dois livros (Vida de Jesus, de Plínio Salgado e “A Carne”, de Júlio Ribeiro) e alguns textos literários inseridos nos livros de gramática. Na escola, o incentivo à leitura era quase nenhum.
Escrever, para mim, era muito embaraçoso. Não conseguia dissertar sobre qualquer assunto. Ainda me lembro quando fiz o primeiro concurso. Parte da prova era uma dissertação. Foi um terror. Não consegui escrever cinco linhas. Sabia tudo de gramática, mas redigir eu não sabia. Entendi que tinha que fazer alguma coisa para aprender a escrever. A motivação eram os concursos que eu precisava enfrentar.
Já no Rio de Janeiro, em 1960, comentava com amigos sobre a minha dificuldade. Eles me recomendaram muita leitura. E me diziam: “leia Machado de Assis”. E depois, “leia Machado de Assis”. E aí os mestres vieram em meu socorro. Não só Machado de Assis, mas José de Alencar, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Fernando Sabino, Millôr Fernandes e outros. Também muita leitura de jornais.
Em 1963, no concurso do Banco do Brasil, o tema para dissertação foi “A importância da cultura na vida moderna”. Suei frio. Valia 50 pontos. Salvei-me na parte gramatical. Acertei tudo. Com muita dificuldade, fiz a dissertação. Consegui quinze pontos. Passei no concurso.
A essa altura, ler e escrever já não era uma obrigação, mas uma necessidade vital e um prazer. E isso até me motivou a fazer o curso de Português/Literatura. E aí intensifiquei a prática de exercícios de redação. Passei a escrever textos para o jornal do movimento da Igreja em que participava (Congregação Mariana) e para o jornal do sindicato dos bancários. Para o jornal da Igreja, eu fazia o editorial, com a eficiente revisão do Paulo Pacheco (de saudosa memória), que dominava com facilidade a Língua Portuguesa e escrevia muito bem. Era um craque em redação.
Gosto de escrever. Para mim, é uma forma de desenvolver o raciocínio e a criatividade, de aprofundar e comunicar visão de mundo. Na escrita tento colocar o que penso, o que vivo e vivi, sempre com a intenção de colaborar. Acho que o ato de escrever é um serviço. Tem um sentido social .
A escolha do tema tem que ser livre. Se determinarem o assunto sobre o qual tenho que escrever, fico atrapalhado. O tema tem que vir de dentro pra fora, do meu interior, da minha sensibilidade. Do contrário, posso até desenvolver o assunto proposto, mas sem sal, sem sabor.
Ainda hoje, confesso, não desenvolvo um texto com facilidade. Antes de escrever, fico matutando-o, organizando-o na cabeça durante horas e, às vezes, durante dias. A partir daí, começo a elaborá-lo. Faço e refaço o texto várias vezes, usando várias folhas de papel. Depois o levo para o computador. Digito, corrijo e modifico algumas vezes. Termino o texto, mas sempre o acho incompleto e fraco. Fico aguardando a opinião dos primeiros leitores, que, geralmente, são generosos na apreciação.
O processo de aprendizagem continua e creio que ainda vou aprender a escrever. Sei que ainda vou aprender. É uma questão de vontade, busca, exercício e tempo.
Rio, março de 2009
Edmilson Martins de Oliveira
" Fiz a escalada da montanha da vida removendo pedras e plantando flores". (Cora Coralina)
segunda-feira, 11 de abril de 2011
CORDEL DA TURMA 72
(23/10/2010) - Edmílson Martins
Neste cordel saudoso,
Fiel e generoso,
Um gênero popular.
Não parnasiano,
Quase paraibano,
Também do Ceará
Quero nele contar
E sem titubear
Boas e más lembranças
De bons tempos vividos,
Com dores e gemidos
Mas sempre de esperança.
Pra matar a saudade
Da universidade,
Reunimos a turma
Num dia abençoado
Belo, ensolarado,
Bem alegres, sem turra
Outrora jovens francos
Hoje cabelos brancos,
Mostrando experiência,
Muito aprendizado,
Saber acumulado,
Firmeza e paciência.
Foi nos anos setenta.
Quem viveu não inventa.
Tempo não amistoso,
Tempo de ditadura
Também de linha dura,
Escuro, terroroso.
Eram tempos danados,
Do falou ta falado,
Não tem discussão.
Inventaram pecado.
Aqueles desgraçados
Esqueceram perdão.
Hoje tamos aqui,
Não vamos desistir
Da amizade plantada.
No nosso caminhar
Sempre vamos lembrar
Dessa vida passada.
Da nossa Gama Filho,
Nossos mestres de brilho
Não vamos esquecer.
Guardamos na memória.
É a nossa história
Pra sempre reviver.
Rio, 23 de outubro de 2010
Neste cordel saudoso,
Fiel e generoso,
Um gênero popular.
Não parnasiano,
Quase paraibano,
Também do Ceará
Quero nele contar
E sem titubear
Boas e más lembranças
De bons tempos vividos,
Com dores e gemidos
Mas sempre de esperança.
Pra matar a saudade
Da universidade,
Reunimos a turma
Num dia abençoado
Belo, ensolarado,
Bem alegres, sem turra
Outrora jovens francos
Hoje cabelos brancos,
Mostrando experiência,
Muito aprendizado,
Saber acumulado,
Firmeza e paciência.
Foi nos anos setenta.
Quem viveu não inventa.
Tempo não amistoso,
Tempo de ditadura
Também de linha dura,
Escuro, terroroso.
Eram tempos danados,
Do falou ta falado,
Não tem discussão.
Inventaram pecado.
Aqueles desgraçados
Esqueceram perdão.
Hoje tamos aqui,
Não vamos desistir
Da amizade plantada.
No nosso caminhar
Sempre vamos lembrar
Dessa vida passada.
Da nossa Gama Filho,
Nossos mestres de brilho
Não vamos esquecer.
Guardamos na memória.
É a nossa história
Pra sempre reviver.
Rio, 23 de outubro de 2010
CORDEL DO AQUECIMENTO GLOBAL
Por Edmílson Martins
A terra geme de dor,
Padece de todo mal:
Poluição e calor,
Aquecimento global.
A terra, mãe generosa,
Benfazeja, piedosa,
Já anda muito zangada
Por ser tratada sem jeito,
Pela falta de respeito
E por ser violentada.
Esses gases poluentes
Fazem mudança climática,
Deixam terra mais quente,
Com a vida problemática.
A natureza é boa
E não foi criada à toa.
Mesmo sendo generosa,
Não aceita traição,
Reage sem compaixão
Contra toda ação danosa.
Na era industrial
Começou poluição,
Os donos do capital
Fizeram depredação.
A ganância do lucro
Deixa os homens malucos,
Até perdem a decência.
Cansando a natureza,
Pensando ser esperteza,
Praticam maleficência.
Nossa mãe terra, cansada,
Geme de dor noite e dia,
Reage desesperada,
Diante da covardia:
Geleiras tão derretendo,
Nossos mares tão enchendo,
Os climas estão mudando,
Tempestades ocorrendo,
Estragos acontecendo,
Seres humanos chorando.
Nós precisamos mudar,
Reagir com atenção,
Nosso planeta cuidar,
Evitar destruição.
Um modelo social,
Sem ganas do capital
É preciso construir.
Esse modelo vigente
Não nos trata como gente,
Vai planeta destruir.
Só se pensa em consumo,
Usar o verbo comprar
Toda vida em resumo
É ter dinheiro, gastar.
Mas todos fomos criados-
E também encarregados-
Pra cultivar o Jardim,
Comendo frutos da vida,
Não seguir cobra atrevida,
Com a oferta ruim.
Rio, 06/04/2011
A terra geme de dor,
Padece de todo mal:
Poluição e calor,
Aquecimento global.
A terra, mãe generosa,
Benfazeja, piedosa,
Já anda muito zangada
Por ser tratada sem jeito,
Pela falta de respeito
E por ser violentada.
Esses gases poluentes
Fazem mudança climática,
Deixam terra mais quente,
Com a vida problemática.
A natureza é boa
E não foi criada à toa.
Mesmo sendo generosa,
Não aceita traição,
Reage sem compaixão
Contra toda ação danosa.
Na era industrial
Começou poluição,
Os donos do capital
Fizeram depredação.
A ganância do lucro
Deixa os homens malucos,
Até perdem a decência.
Cansando a natureza,
Pensando ser esperteza,
Praticam maleficência.
Nossa mãe terra, cansada,
Geme de dor noite e dia,
Reage desesperada,
Diante da covardia:
Geleiras tão derretendo,
Nossos mares tão enchendo,
Os climas estão mudando,
Tempestades ocorrendo,
Estragos acontecendo,
Seres humanos chorando.
Nós precisamos mudar,
Reagir com atenção,
Nosso planeta cuidar,
Evitar destruição.
Um modelo social,
Sem ganas do capital
É preciso construir.
Esse modelo vigente
Não nos trata como gente,
Vai planeta destruir.
Só se pensa em consumo,
Usar o verbo comprar
Toda vida em resumo
É ter dinheiro, gastar.
Mas todos fomos criados-
E também encarregados-
Pra cultivar o Jardim,
Comendo frutos da vida,
Não seguir cobra atrevida,
Com a oferta ruim.
Rio, 06/04/2011
CORDEL DE ABRIL
Por Edmílson Martins
Foi num primeiro de abril
Aquele golpe safado
No calcanhar do Brasil,
Deixando ensanguentado
Todo o povo brasileiro
Que crescia bem ligeiro
Na busca da liberdade.
Foi ferido fortemente
No coração e na mente
Com um golpe de maldade.
Nunca vamos esquecer.
Foi obra de satanás
Que não pode merecer
Esquecimento jamais.
Aqueles anos danados,
Com carrascos malvados,
Marcaram a vida da gente.
Abriram muitas feridas
Em nossas gentes queridas
E marcaram nossa mente.
Nossas novas gerações
Desconhecendo história
Não conhecem os vilões
Que sustaram nossa glória.
Atuando fortemente,
Eles estão bem presentes
Nos governos da nação,
Dominando os partidos.
Mesmo com muitos gemidos,
Só semeiam sujeição.
Daquele abril sangrento
Nós sempre vamos lembrar,
Sem ficar só no lamento,
Mas pretendendo lutar
Pra libertar a nação
Do jugo da corrupção
E do grande capital,
Que com poder de barganha,
Agindo com tanta manha,
Tem nos feito muito mal.
Foi num primeiro de abril
Aquele golpe safado
No calcanhar do Brasil,
Deixando ensanguentado
Todo o povo brasileiro
Que crescia bem ligeiro
Na busca da liberdade.
Foi ferido fortemente
No coração e na mente
Com um golpe de maldade.
Nunca vamos esquecer.
Foi obra de satanás
Que não pode merecer
Esquecimento jamais.
Aqueles anos danados,
Com carrascos malvados,
Marcaram a vida da gente.
Abriram muitas feridas
Em nossas gentes queridas
E marcaram nossa mente.
Nossas novas gerações
Desconhecendo história
Não conhecem os vilões
Que sustaram nossa glória.
Atuando fortemente,
Eles estão bem presentes
Nos governos da nação,
Dominando os partidos.
Mesmo com muitos gemidos,
Só semeiam sujeição.
Daquele abril sangrento
Nós sempre vamos lembrar,
Sem ficar só no lamento,
Mas pretendendo lutar
Pra libertar a nação
Do jugo da corrupção
E do grande capital,
Que com poder de barganha,
Agindo com tanta manha,
Tem nos feito muito mal.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
ARMAÇÃO ( CORDEL)
Edmílson Martins
O Terror na favela
Mancha cidade bela.
A Polícia mata
Bandido, morador
E causa muita dor,
Ostentando bravata.
Ouvir tanta besteira
Me deu até tonteira.
Falou governador
Ao bom povo sofrido,
Entre gritos, gemidos,
Semeando pavor.
Ligo televisão,
Deus! Que perdição!
Vejo jovens armados,
Soldados atirando,
Muita gente chorando
Por jovens mal amados.
Diz o governador,
Sem humano calor:
“Estão desesperados,
Eles estão perdidos”,
Mas o povo oprimido
Está bem magoado.
No Rio de Janeiro
Pavor e desespero.
Muita desilusão.
O povo já descrente,
Pensa na sua mente:
“Errei na votação”.
Governo e polícia
Ostentam com malícia
Poder de repressão,
Escondem indescência
E cúmplice abrangência
Nessa situação.
Um cinismo geral,
Gesto neoliberal
Contagia governos,
Que em nome dos lucros
Deixam todos malucos
E os pobres enfermos.
Invasão de favela
É tremenda balela.
Não resolve problemas,
Esconde armações,
Ajuda tubarões,
seus estratagemas.
Prendem pequenos peixes.
Os grandes, dizem, deixem.
São nossos aliados,
Nos garantem poder,
Não podemos perder,
Seremos abonados.
Meninos iludidos
Por sistema falido
Entram na armação
E são exterminados,
Tachados de malvados
Pelo tal tubarão.
Nossa sociedade,
Mostrando dignidade,
Deve questionar
Essa situação
E com indignação
Protestar e lutar.
Povo quer solução,
Não a intervenção,
Moradia decente,
Educação, trabalho
Hospital, bom salário,
Tratamento de gente.
O Terror na favela
Mancha cidade bela.
A Polícia mata
Bandido, morador
E causa muita dor,
Ostentando bravata.
Ouvir tanta besteira
Me deu até tonteira.
Falou governador
Ao bom povo sofrido,
Entre gritos, gemidos,
Semeando pavor.
Ligo televisão,
Deus! Que perdição!
Vejo jovens armados,
Soldados atirando,
Muita gente chorando
Por jovens mal amados.
Diz o governador,
Sem humano calor:
“Estão desesperados,
Eles estão perdidos”,
Mas o povo oprimido
Está bem magoado.
No Rio de Janeiro
Pavor e desespero.
Muita desilusão.
O povo já descrente,
Pensa na sua mente:
“Errei na votação”.
Governo e polícia
Ostentam com malícia
Poder de repressão,
Escondem indescência
E cúmplice abrangência
Nessa situação.
Um cinismo geral,
Gesto neoliberal
Contagia governos,
Que em nome dos lucros
Deixam todos malucos
E os pobres enfermos.
Invasão de favela
É tremenda balela.
Não resolve problemas,
Esconde armações,
Ajuda tubarões,
seus estratagemas.
Prendem pequenos peixes.
Os grandes, dizem, deixem.
São nossos aliados,
Nos garantem poder,
Não podemos perder,
Seremos abonados.
Meninos iludidos
Por sistema falido
Entram na armação
E são exterminados,
Tachados de malvados
Pelo tal tubarão.
Nossa sociedade,
Mostrando dignidade,
Deve questionar
Essa situação
E com indignação
Protestar e lutar.
Povo quer solução,
Não a intervenção,
Moradia decente,
Educação, trabalho
Hospital, bom salário,
Tratamento de gente.
domingo, 24 de outubro de 2010
CORDEL DO RIO DE JANEIRO
Edmilson Martins
Outubro/2009
O meu Rio de Janeiro,
Sempre belo, altaneiro,
Cheio dos encantos mil,
Hoje tão desfigurado,
Tão ferido, alvejado
Por drogas, bala fuzil.
Jesus Cristo Redentor,
Sangrando. Cheio de dor,
Do alto do Corcovado,
Com braços chama atenção,
Apela pro coração
E se mostra amargurado.
Não basta a gente da rua?
Com vida nua e crua?
Agora essa tragédia
Trazida por marginais,
Coisa de satanás
Quadro triste, não comédia.
Hoje morro de saudade
Daquela bela cidade
Desta região sudeste,
Pacata, não violenta
Que encontrei em sessenta
Chegando lá do Nordeste.
As nossas autoridades
Sempre cheias de vaidades
Falam cínicas, arrogantes:
Tomaremos providências
Não queremos violências
Não seremos tolerantes.
Mas o tempo tá passando,
Nosso povo tá cansando
E ninguém aguenta mais.
Prefeito, governador,
Lula, seja lá quem for,
Façam algo pela paz.
Jogos olímpicos sim,
Não com a cidade assim.
Queremos cidade terna
Com gente feliz, sorrindo
Chegando, depois saindo,
Sem vê nenhuma baderna.
Este Rio de Janeiro
E também de fevereiro
Queremos sempre bonito
Sem tiro, bala perdida,
Sem gente por cão mordida,
Sempre cantando, bendito.
Que o Cristo Redentor,
Com seu braço protetor
Abençoe o nosso povo,
Cesse essa guerra insana
E atitude que engana.
Queremos um país novo.
Outubro/2009
O meu Rio de Janeiro,
Sempre belo, altaneiro,
Cheio dos encantos mil,
Hoje tão desfigurado,
Tão ferido, alvejado
Por drogas, bala fuzil.
Jesus Cristo Redentor,
Sangrando. Cheio de dor,
Do alto do Corcovado,
Com braços chama atenção,
Apela pro coração
E se mostra amargurado.
Não basta a gente da rua?
Com vida nua e crua?
Agora essa tragédia
Trazida por marginais,
Coisa de satanás
Quadro triste, não comédia.
Hoje morro de saudade
Daquela bela cidade
Desta região sudeste,
Pacata, não violenta
Que encontrei em sessenta
Chegando lá do Nordeste.
As nossas autoridades
Sempre cheias de vaidades
Falam cínicas, arrogantes:
Tomaremos providências
Não queremos violências
Não seremos tolerantes.
Mas o tempo tá passando,
Nosso povo tá cansando
E ninguém aguenta mais.
Prefeito, governador,
Lula, seja lá quem for,
Façam algo pela paz.
Jogos olímpicos sim,
Não com a cidade assim.
Queremos cidade terna
Com gente feliz, sorrindo
Chegando, depois saindo,
Sem vê nenhuma baderna.
Este Rio de Janeiro
E também de fevereiro
Queremos sempre bonito
Sem tiro, bala perdida,
Sem gente por cão mordida,
Sempre cantando, bendito.
Que o Cristo Redentor,
Com seu braço protetor
Abençoe o nosso povo,
Cesse essa guerra insana
E atitude que engana.
Queremos um país novo.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
MENINOS, EU VI
Edmílson Martins de Oliveira
O título deste texto lembra o velho timbira do poema "I- Juca-Pirama", de Gonçalves Dias, em que o velho timbira , às noites nas tabas, reúne os jovens da tribo para contar as histórias dos seus antepassados, lembrando a bravura e a dignidade de guerreiros da tribo Tupy. "Se alguém duvidava do que ele contava, dizia prudente: - “meninos, eu vi".
Pois bern, lembrando o velho timbira, meninos, eu vi urn programa fantástico, que nestes tempos de mediocridades e desrespeito às pessoas humanas, valoriza o povo e a cultura popular. Tern o título de "Politica com Arte" e é apresentado todos os domingos, de 11 às 13 horas, pelo competente ator, comunicador e vereador Stepan Nercessian, na Rádio Carioca AM 710.
Justificando o título do programa, ele leva, todos os domingos, políticos
comprometidos com o povo e artistas da música popular brasileira, tentando valorizar a nossa cultura , tão desprezada pelas autoridades govemamentais.
No dia 8 de janeiro deste ano, meninos, eu vi e ouvi ao vivo esse programa. Eu estava lá, acompanhado da Maria José, convidado pelo meu amigo, jomalista e escritor, Ivan Alves Filho, urn dos organizadores do programa, para falar do livro que escrevi, intitulado "BANCÁRI0S - ANOS DE RESISTÊNCIA (1964-1979), que trata da resistência à ditadura militar.
Eu estava lá para dizer que vi, nos primeiros anos da década de 1960, o povo se organizando e avançando na luta pela conquista da sociedade democrática; que vi o golpe militar de 1964, contra o povo brasileiro, sufocando os anseios de liberdade e de justiça; que vi serem sufocadas as liberdades democráticas, a cultura e quase tudo o que o povo precisa para a sua felicidade. Mas vi, também, os trabalhadores nas ruas, tentando reagir contra o golpe. Vi os tanques apontarem os canhões contra o povo, para liquidar qualquer tentativa de reação. Vi jovens, dedicados à luta pela democracia, desesperados, optando pela luta armada, sem perceberem que estavam optando pelo suicídio e fortalecendo a ditadura. Vi pessoas de born senso, pensando e optando pela resistência pacífica, inteligente e duradoura, mesmo enfrentando incompreensões, perseguições, prisões e torturas. Vi o povo resistindo, com indignação e sabedoria. Vi mulheres participando da resistência à ditadura, com muita dignidade e bravura. Vi, naquele momento, em que "minha gente andava falando de lado e olhando pro chão", como disse Chico Buarque, movimentos de solidariedade aos que eram presos por lutarem contra a opressão.
Voltando ao Programa do Stepan, quero dizer que vi uma coisa fantáistica. Meninos, aquilo valeu ir ao Centro da cidade, num domingo de sol, às 11 horas da manhã. Depois da minha entrevista e da brilhante entrevista do dep. estadual Paulo Pinheiro, Meninos, eu vi MILTINHO (Milton Santos de Almeida), urn fenômeno da Música Popular Brasileira dos anos 1960. Estava ele lá, bem conservado, bigodinho aparado, agora bem branquinho. Apesar dos 78 anos de idade, com muito vigor e bem-humorado, de bem com a vida. A voz
anasalada, o ritmo contagiante, a música de boa qualidade lembraram os anos de chumbo da ditadura, quando sua voz e seus sucessos amenizavam urn pouco as tristezas por causa da opressão política. Vi o Miltinho falando dos seus grandes sucessos e grandes parceiros como, Luiz Antônio, Ataulfo Alves, Ary Barroso, Jair Amorim, etc. Vi o Miltinho cantando "Eu e o Rio (de Luiz Antonio):" Rio, caminho que anda/ e vai resmungando talvez uma dor/ ah!
quanta pedra levaste / outra pedra deixaste/ sem vida e amor /Vens lá do alto da serra/o ventre da terra rasgando sem dó/ Eu também venho do amor / com o peito rasgado de dor e tão só...". A emoção tomou conta do Studio da Radio Carioca. Todos pararam para escutar Miltinho.
Finalmente, vi o Miltinho, cheio de vontade de cantar, trabalhar, expressar a cultura do povo, amargurado por não ter mais espaço na mídia, hoje dominada pela mediocridade e pelos "jabás". A ditadura sufocou a cultura popular e os govemos que vieram depois tratam-na com desprezo, desrespeitando a dignidade do povo brasileiro. Urn povo perde a liberdade, quando perde a sua cultura. 0 Império Romano dominou a Grécia pelas armas, mas foi dominado pela cultura dos gregos. Como disse Jesus, quando tentado no deserto,"Nem só de pão vive o homem".
Enfim, parafraseando o velho Timbira do poema, se alguém duvidar do que estou contando, eu torno prudente: meninos, eu vi.
Edmílson Martins de Oliveira
Janeiro de 2006
O título deste texto lembra o velho timbira do poema "I- Juca-Pirama", de Gonçalves Dias, em que o velho timbira , às noites nas tabas, reúne os jovens da tribo para contar as histórias dos seus antepassados, lembrando a bravura e a dignidade de guerreiros da tribo Tupy. "Se alguém duvidava do que ele contava, dizia prudente: - “meninos, eu vi".
Pois bern, lembrando o velho timbira, meninos, eu vi urn programa fantástico, que nestes tempos de mediocridades e desrespeito às pessoas humanas, valoriza o povo e a cultura popular. Tern o título de "Politica com Arte" e é apresentado todos os domingos, de 11 às 13 horas, pelo competente ator, comunicador e vereador Stepan Nercessian, na Rádio Carioca AM 710.
Justificando o título do programa, ele leva, todos os domingos, políticos
comprometidos com o povo e artistas da música popular brasileira, tentando valorizar a nossa cultura , tão desprezada pelas autoridades govemamentais.
No dia 8 de janeiro deste ano, meninos, eu vi e ouvi ao vivo esse programa. Eu estava lá, acompanhado da Maria José, convidado pelo meu amigo, jomalista e escritor, Ivan Alves Filho, urn dos organizadores do programa, para falar do livro que escrevi, intitulado "BANCÁRI0S - ANOS DE RESISTÊNCIA (1964-1979), que trata da resistência à ditadura militar.
Eu estava lá para dizer que vi, nos primeiros anos da década de 1960, o povo se organizando e avançando na luta pela conquista da sociedade democrática; que vi o golpe militar de 1964, contra o povo brasileiro, sufocando os anseios de liberdade e de justiça; que vi serem sufocadas as liberdades democráticas, a cultura e quase tudo o que o povo precisa para a sua felicidade. Mas vi, também, os trabalhadores nas ruas, tentando reagir contra o golpe. Vi os tanques apontarem os canhões contra o povo, para liquidar qualquer tentativa de reação. Vi jovens, dedicados à luta pela democracia, desesperados, optando pela luta armada, sem perceberem que estavam optando pelo suicídio e fortalecendo a ditadura. Vi pessoas de born senso, pensando e optando pela resistência pacífica, inteligente e duradoura, mesmo enfrentando incompreensões, perseguições, prisões e torturas. Vi o povo resistindo, com indignação e sabedoria. Vi mulheres participando da resistência à ditadura, com muita dignidade e bravura. Vi, naquele momento, em que "minha gente andava falando de lado e olhando pro chão", como disse Chico Buarque, movimentos de solidariedade aos que eram presos por lutarem contra a opressão.
Voltando ao Programa do Stepan, quero dizer que vi uma coisa fantáistica. Meninos, aquilo valeu ir ao Centro da cidade, num domingo de sol, às 11 horas da manhã. Depois da minha entrevista e da brilhante entrevista do dep. estadual Paulo Pinheiro, Meninos, eu vi MILTINHO (Milton Santos de Almeida), urn fenômeno da Música Popular Brasileira dos anos 1960. Estava ele lá, bem conservado, bigodinho aparado, agora bem branquinho. Apesar dos 78 anos de idade, com muito vigor e bem-humorado, de bem com a vida. A voz
anasalada, o ritmo contagiante, a música de boa qualidade lembraram os anos de chumbo da ditadura, quando sua voz e seus sucessos amenizavam urn pouco as tristezas por causa da opressão política. Vi o Miltinho falando dos seus grandes sucessos e grandes parceiros como, Luiz Antônio, Ataulfo Alves, Ary Barroso, Jair Amorim, etc. Vi o Miltinho cantando "Eu e o Rio (de Luiz Antonio):" Rio, caminho que anda/ e vai resmungando talvez uma dor/ ah!
quanta pedra levaste / outra pedra deixaste/ sem vida e amor /Vens lá do alto da serra/o ventre da terra rasgando sem dó/ Eu também venho do amor / com o peito rasgado de dor e tão só...". A emoção tomou conta do Studio da Radio Carioca. Todos pararam para escutar Miltinho.
Finalmente, vi o Miltinho, cheio de vontade de cantar, trabalhar, expressar a cultura do povo, amargurado por não ter mais espaço na mídia, hoje dominada pela mediocridade e pelos "jabás". A ditadura sufocou a cultura popular e os govemos que vieram depois tratam-na com desprezo, desrespeitando a dignidade do povo brasileiro. Urn povo perde a liberdade, quando perde a sua cultura. 0 Império Romano dominou a Grécia pelas armas, mas foi dominado pela cultura dos gregos. Como disse Jesus, quando tentado no deserto,"Nem só de pão vive o homem".
Enfim, parafraseando o velho Timbira do poema, se alguém duvidar do que estou contando, eu torno prudente: meninos, eu vi.
Edmílson Martins de Oliveira
Janeiro de 2006
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