quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O GRÊMIO ESCOLAR





                 O GRÊMIO ESCOLAR

                                Edmílson Martins
                                Janeiro de 2020                       

Era o ano de 1951. Eu tinha doze anos e alguns meses de idade, quando entrei para o Grupo Escolar de Crato-Ce, no Segundo Ano Primário.

No ano anterior, 1950, eu saíra da roça, no sítio Ipueira, para estudar em Crato, levado pelo meu irmão Agostinho, que já se encontrava na cidade há alguns anos.

Após estudar durante um ano no Pré-primário, num cursinho dirigido por Dona Antônia, em sua residência. Ela preparava crianças entre dez e doze anos, que nunca tinham estudado em uma escola.

Foi minha primeira professora. Com ela não tive dificuldades, porque já tinha sido alfabetizado pelo meu irmão José (de saudosa memória). Ainda me lembro dela. Era uma senhora mulata, de olhos grandes e atenciosos, lábios grossos, cabelos encaracolados. Muito simpática e comunicativa. Excelente educadora. Ainda me lembro das estórias que ela contava, desenhando os personagens no quadro negro.

No final do curso, ela me encaminhou para o Grupo Escolar, sugerindo a minha matrícula no Segundo Ano Primário, sustentando que eu estaria preparado para ingressar no Segundo Ano.

Quando cheguei à sala de aula, uma professorinha deu-me as boas vindas e encaminhando-me ao quadro negro, passou alguns exercícios de matemática e língua Portuguesa. Acertei tudo que ela propôs, com facilidade. Então, ela me encaminhou para o Segundo Ano forte. Havia o Segundo Ano fraco e o Segundo Ano forte.

Eu era o mais velho da turma. Tinha entre doze e treze anos e a meninada tinha entre nove e dez anos. Quase todos filhos da classe média cratense, que tinham estudos regulares, desde o Pé- Primário.

Talvez, por causa da idade, com mais experiência, ou pela grande vontade de estudar, eu me destacava na turma. A nota máxima, naquele tempo era doze. Eu sempre conseguia a máxima, em todas as matérias.

A professora chamava-se dona Sila. Lembro-me da figura e do jeito dela: baixinha, gordinha, muito dinâmica, comunicativa e simpática. Tinha o respeito e admiração da criançada.

Um dia, no final do primeiro semestre, ela reuniu toda a turma, fora da sala de aula, no pátio da escola e propôs a criação de um Grêmio. Primeiro, explicou o que era um grêmio, suas funções, seus objetivos.

Dona Sila era uma verdadeira educadora. Sentia o dever de transmitir à criançada uma educação verdadeira, completa, com iniciativas que levassem os alunos a participar da construção de sua cidadania.

Naquele tempo, havia movimentos estudantis atuantes, com muitos grêmios escolares e outros grupos organizados. Em Crato existia a União dos Estudantes de Crato (UEC), muito atuante na região, em defesa da organização dos estudantes.

Pois bem, dona Sila propôs à turma a criação do grêmio e me indicou para presidente. Talvez, porque eu era o mais velho da turma e tinha as melhores notas. Foi a minha primeira experiência de participação em movimento organizado. Ali comecei, para nunca mais parar. Viva dona Sila.

Para secretária, indicou uma menina, de cujo nome não me lembro. Só me lembro de que ela cantava e, convidada, cantou a música “Que será”, grande sucesso na voz de Dalva de Oliveira. Ela cantou a música toda, com muito desembaraço e segurança. Sempre que ouço a música, lembro-me daquele momento.

Só fiquei no Grupo Escolar seis meses. No segundo semestre, passei a estudar à noite, no Quarto Ano Primário, numa escola, também municipal. Lá, eu era o mais novo da turma. Os outros eram todos adultos, com mais de dezoito anos.
                                 
Os seis meses no Grupo Escolar, deixaram marcas profundas em minha memória, principalmente, a iniciativa da Dona Sila, com a criação do grêmio. A breve experiência no grêmio foi o pontapé inicial da minha participação, até hoje, nos movimentos sociais.

Hoje, falta no processo educativo atividades como aquelas, incentivadas por Dona Sila, que tinha a preocupação de inserir as crianças no processo de construção da cidadania, necessário para a construção da sociedade democrática, com participação de todos os cidadãos.



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