segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

OS FILHOS DAS TREVAS

 

 

 

              OS FILHOS DAS TREVAS

                                   

                                           Edmílson Martins

                                           Dezembro/2022

 

 As manifestações golpistas de hoje, em que pessoas e grupos, inconformados com o resultado das eleições democráticas, tentam impedir a posse do presidente eleito, numa atitude antidemocrática e contrária aos poderes constituídos, têm tudo a ver com fatos ocorridos através da História da humanidade.

 

São sempre os filhos das trevas querendo, com sua soberba, e desejo de mando, arrastar todos para a escuridão do seu egoísmo e autoritarismo. Querem ser os que submetem todos à sua vontade, desprezando a luz, a liberdade e a justiça.

 

Essa mentalidade teve um começo, que se desenvolveu através dos tempos. Alguns relatos da Bíblia, dizem o seguinte:

“Lúcifer se rebelou contra Deus, desejando ser semelhante ao Criador (Is 14:13-14), sendo a primeira criatura na qual se originou o pensamento competitivo. Ele desejou competir com Deus cobiçando para si a autoridade que Deus possui, planejando, para isso, ocupar o lugar que é exclusivo do Criador, querendo ser igual a Ele (Is 14:14). Quis, assim, deter o comando do universo e receber das demais criaturas honra, adoração, elogio etc.

 

Dentro da Sua Justiça, Deus destituiu Lúcifer, lançando-o em densas trevas (Is 14:12, 15). Inconformado com a reta justiça de Deus, Lúcifer ficou tomado de ódio e pensamento de vingança, transformando-se em satanás, diabo, maligno (Ap 12:9, Ap 20:2); passando a ser inimigo do Criador”.

 

Com o objetivo de ter aliados, o diabo iludiu cerca de um terço dos anjos para o seguirem nesse movimento de soberba e participarem desse ato de disputa (2 Pe 2:4, Jd 1:6) maligno, injusto e rebelde contra Deus. Por causa disso, tais anjos rebeldes tornaram-se demônios, também inimigos do Criador, passando a ser à imagem e conforme a semelhança de satanás, o líder e chefe deles (Ap 12:9, Lc 11:18). Assim foi fundado o império de satanás ou império das trevas (Cl 1:13), formado por todos esses espíritos maus, os quais vivem maquinando, cultivando e preservando, em si, o pensamento competitivo que é movido por ódio, soberba, rebelião, associado ao pensamento de derrota”.

 

No Império Romano, nos anos 44/45 antes de Cristo, numa conspiração, senadores romanos efetuaram o assassinato de Júlio César, para retirá-lo do poder que ocupava. Os conspiradores de então, como todos os conspiradores, traidores, armaram uma trama para atrair César a uma sessão do senado, onde foi esfaqueado.

 

Quarenta e tantos anos depois, os luciferianos organizaram a mesma trama contra Jesus, apontando-o como subversivo, elemento perigoso e nocivo aos “bons costumes”. Julgaram-no e no julgamento mais perverso da História, condenaram-no à morte de cruz.

 

Esses terríveis filhos das trevas são responsáveis pelo assassinato de dois presidentes dos Estados Unidos: Abraham Lincoln e John Kennedy, um no Século XIX e o outro no Século XX. São responsáveis pela matança de milhões de pessoas em duas guerras mundiais: 1914/1918 e 1939/1945. Responsáveis também pela morte de Mahatma Gandhi, o pastor  Martin Luther King e Robert Kennedy.

 

São responsáveis pelas intervenções em vários países do mundo, com derrubada de governantes, assassinatos de políticos e submissão dos povos aos seus caprichos e interesses comerciais. Tudo em nome das suas supostas verdades.

 

Na América Latina, eles são responsáveis pelas ditaduras sangrentas implantadas, em vários países, com torturas, mortes e supressão das liberdades democráticas. Foram esses filhos da maldade que mataram o presidente Salvador Allende, do Chile, em 1972, dentro do palácio do governo.

 

Aqui no Brasil, esses filhos das trevas, muitas vezes, atentaram contra as liberdades democráticas. Orgulhosos, autoritários, incapazes de governar com o povo, sempre tentam se impor através de golpes. Foi assim em 1954, quando levaram o presidente Getúlio Vargas ao suicídio e, em 1955, quando tentaram impedir a posse de Juscelino  Kubitschek.

 

Em 1964, derrubaram, pela força bruta, o presidente João Goulart, eleito em eleições democráticas. Em 1992, tramaram o impeachment de Fernando Collor, que, apesar de incompetente, fora eleito pelo povo. Em 2016, Dilma Rousseff foi derrubada por um dos golpes mais escandalosos da nossa História. Tudo isso, eu vi, em nosso país. Meninos e meninas, eu vi.

 

Agora, esses que não querem a luz, que estão acostumados na escuridão, inconformados com a derrota nas eleições, tomados de ódio e pensamento de vingança, tentam impedir a posse do presidente Lula, eleito pela maioria dos eleitores brasileiros.

 

Agora, os argumentos são os mais imbecis possíveis, os mesmos argumentos que justificaram os golpes e as ditaduras na América Latina. Para ter aliados, como Lúcifer, iludem o povo, alegando que essas práticas golpistas são necessárias, para evitar a ascensão do comunismo.

 

Usam isso e outros motivos tolos como pretexto. Mas, na verdade, não é nada disso. O que querem mesmo é o poder e a dominação capitalista. Querem o poder a qualquer custo, para manterem os seus privilégios e o acúmulo de riquezas, em detrimento da maioria da população.

 

É preciso, então, que todos estejamos sempre alertas, para não sermos arrastados para as trevas por esses mal intencionados. Somente o povo, com sua participação livre e democrática, erros e acertos, vitórias e derrotas, tem o direito de escolher e destituir seus dirigentes.

 

 

 

 

 

domingo, 4 de setembro de 2022

QUANDO PARTI DO SERTÃO

 

 

                        QUANDO PARTI DO SERTÃO

                

                                            Edmílson Martins

                                            Setembro 2022

 

Foi assim: eu tinha 21 anos de idade e estava morando não cidade de Crato-CE, desde os 12 anos de idade. Tinha concluído o curso técnico de contabilidade e trabalhava no Banco de Crédito Comercial.

 

Como lá eram precárias as condições para melhorar de vida, decidi viajar para o Rio de Janeiro, onde já morava meu irmão Agostinho. Ele e sua esposa Loreto, de saudosa memória, me incentivaram, informando que no Rio as possibilidades de arrumar um bom emprego eram maiores.

 

Em janeiro de 1960, comecei a me preparar para a viagem. Pedi demissão do banco, juntei algum dinheiro suficiente para a passagem de ônibus e comecei a despedida dos amigos e parentes.

 

Como viajaria em março, fui passar uns dias no sítio Ipueira, no grande sertão, onde moravam meus pais, alguns irmãos, tios, primos e amigos de infância. Nasci naquele sítio e lá fiquei até os 12 anos, quando fui estudar em Crato. Mas até os 16 anos, nas férias do meio e do fim do ano, eu ia pra lá, trabalhar na roça.

 

Naquele tempo eram ainda escassos os meios de comunicação e de transporte, por isso, o Rio de Janeiro, para os sertanejos, era uma terra longínqua. As expressões eram: “você vai pra tão longe, nunca mais vou te vê”. Em cada despedida, uma lágrima nos olhos de quem ficava e de quem partia.

 

Os dias em que fiquei no sítio foram de emoções. Os anos que lá vivi tinham criado raízes. As roças, os animais, os açudes, as árvores, a Casa de Farinha, o Engenho de produção de rapadura, o canavial, os amigos de infância, o povo do lugar, tudo estava ligado à minha vida.

 

Quando me despedi dos meus pais e dos meus irmãos, o momento foi de alegria e tristeza. Alegria porque sabiam que eu encontraria uma vida melhor e tristeza por causa da minha partida para terras tão distantes. Meu pai, que sempre fora durão, na despedida, ficou com lágrimas nos olhos.

 

Com o coração apertado e vontade de chorar, montei no cavalo e parti. E, pelas estradas, fui me despedindo de quem encontrava, ouvindo o cantar triste dos passarinhos: dos Bem-te-vis, das rolinhas Fogo Apagou, dos sabiás, que mesmo sofrendo a falta d’água e dos verdes das matas, de lá, talvez por impossibilidade, não saíam. Era um tempo de seca. Eu só não via a Asa Branca, porque já tinha batido asas do sertão.

 

Naquele momento, tomado pela emoção, cavalgando pelas estradas, por onde outrora passara Lampião e seu bando, sedentos de justiça, conforme alguns historiadores, fui observando as paisagens, ainda com pouca noção das questões sociais, e me perguntava:

“Por que tenho que me retirar da minha terra, para lugares tão distantes e desconhecidos”? Vários de meus irmãos também já se tinham tornado retirantes.

 

Eu percebia que, apesar das secas, havia riquezas no sertão. Com o tempo, fui compreendendo que o problema são as injustiças sociais, a concentração das riquezas nas mãos de poucos. O pequeno sítio onde eu nasci estava no meio de um grande latifúndio, com muitas plantações e muita criação de gado. Havia outros latifúndios, cujos donos e filhos nunca emigravam.

 

Na caminhada, parei no sítio Mandacaru, onde morava Elias, meu irmão, com sua esposa Mundinha. Após um café com leite e bolo de milho, dirigi-me ao lugar chamado Tanques, ou Pé de Serra, para me despedir de Maria, minha irmã e de Pedro, meu cunhado. Após um banho num pequeno riacho que vinha da serra e um aperitivo de cachaça da terra, um saboroso almoço feito por minha irmã.

 

Após o almoço, despedidas e emoções, fui para a cidade de Missão Velha, onde

residiam meu irmão José, com Doca, sua esposa e filhos, minhas tias e minha avó Rosinha. Foi um dia de muitas explicações sobre a minha mudança para o Rio de Janeiro. Depois de muitas conversas, a despedida de cada um. Mais emoções.  Peguei o trem e rumei para o Crato, de onde partiria para o Rio.

 

Na cidade de Crato, onde também já tinha criado raízes, as despedidas também foram dolorosas. Cada despedida, uma lágrima nos olhos. Eu me lembrava sempre de uma estrofe da canção “Adeus, cinco letras que choram”, de Francisco Alves, muito presente na segunda metade da década de 1950:

“Quem parte tem os olhos rasos d'água/Ao sentir a grande mágoa/Por se despedir de alguém/Quem fica, também fica chorando/Com o coração penando/Querendo partir também”.

 

Mesmo com os olhos rasos d’água, eu tinha que partir. Como a Asa Branca, tinha que buscar melhores condições de vida. E isso foi muito bom. No Rio de Janeiro, centro de efervescência política e social, aprendi muito. Nos Movimentos da Igreja e no Movimento Sindical, compreendi, na reflexão e na luta, que o drama dos retirantes estava nas injustiças sociais, não nas secas.

 

E eu, que queria ganhar a vida, logo adquiri nova visão de mundo e de existência. Passei a compreender que ganhar a vida seria lutar por uma sociedade justa e fraterna e não somente arrumar um bom emprego. Compreendi também que olhar o passado com carinho é importante, para valorizar o presente e ter uma perspectiva segura do futuro.

 

 Nossas raízes estão no passado. Daí o significado da História e a importância do legado dos nossos antecessores. A lembrança do passado não é apenas saudade, ou saudosismo, mas, sobretudo, “um sacramento da solidariedade”, como já disse o pensador Rubem Alves.